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domingo, 12 de outubro de 2014

SOMOS O QUE BUSCAMOS | Entrevista a Ana Marques Gastão



O poeta moderno é perplexo porque se tornou crítico, para além de ser um artífice da língua. Nem sempre escreve apenas poemas, dir-se-ia, por vezes, também uma figura, cujo estatuto varia. Floriano Martins (Fortaleza, 1957) é essa figura, nome que assina uma obra e que a obra constrói, mais do que o homem que simplesmente a fabrica.
Autodidacta, iconoclasta, desconcertante, resistente, poliédrico, o autor de Alma em Chamas (Letra & Música, 1998) exerce ainda as funções de ensaísta, editor, tradutor, de Lorca a Cabrera Infante. Estudioso da literatura hispano-americana, no domínio poético, especialista do surrealismo, sobretudo na América Latina, dirige, com Claudio Wiiler, a revista Agulha, coordenando o projecto Banda Hispânica.
Floriano Martins é, todavia, sobretudo poeta. Poeta perplexo perante o estremecimento do mundo, em cuja escrita se fundem géneros. Consciente da importância crítica da cultura enquanto compreensão distanciada e, no entanto, acesa, o escritor de Estudos de Pele (Lamparina, 2001) veste a pele da astúcia ensaística no seu caminho de palavras que trata como seres vivos. Sabe que nelas há uma força não domesticada, maldita, privilegiando, no diálogo entre trevas e luz, as relações de vizinhança, próximas ou dissemelhantes, com a arte dos outros. Proclama a máxima surrealista, o autor de Sábias Areias (Mundo Manual, 1991): “Quero que se calem quando deixarem de sentir”, sabendo que a linguagem anuncia o mundo. Pensar o poema significa, pois, procurar que a memória se transcenda num jogo entre imaginação e entendimento. [AMG]

ANA MARQUES GASTÃO Estudos de Pele é o seu mais recente livro de poesia. Pele do corpo, pele da página. Textos do corpo, corpo do texto, da criação. Entre tudo o mais, dir-se-ia também uma obra sobre a escrita, a linguagem, e ainda sobre a memória?

FLORIANO MARTINS Um livro mestiço. Em toda a criação não damos um passo sem a memória e a linguagem. São aspectos intrínsecos, indissociáveis. Quanto à pele, sendo o que nos recobre, pensamos nela apenas em sua exterioridade. Não a vemos como um conjunto de tecidos, e menos ainda suspeitamos do que lhe passa por dentro. Isto porque caímos no ardil de perceber o mundo de forma fragmentada, alheios às infinitas conexões existentes entre os fragmentos. O livro se volta para este conhecimento, a identificação do todo por meio do convívio com as suas partes, a busca dos elos entre elas.

AMG Estamos perante um livro polifónico que actua na reconstrução de um mundo, sendo o seu conteúdo o imaginário poético encontrado entre o real referencial e o discurso do fabuloso, do fantástico, do onírico, até do maldito?

FM O mundo que busca reconstruir é justamente o dessa unidade perdida, porém sem saudosismo de espécie alguma. Neste caso a polifonia é indispensável, bem como a presença desses discursos todos. O imaginário, mesmo em sua conotação de ilusório, é real. Não faço essa distinção entre uma coisa e outra. Somos também aquilo que sonhamos e desejamos. E dentro dessa mescla não caberia esquivar-se do maldito. A perversão nos define, sobretudo nas maneiras menos percebidas como tais. Basta pensar nas fábulas e nas cantigas de roda, por exemplo. É uma estranha relação a que o homem mantém, tão íntima, com as trevas.

AMG Entrelaça na sua obra delírio e lucidez, corpo e espírito. Quando perguntaram a Max Ernst o que pensava de Kant, ele respondeu: “A nudez da mulher é mais sábia do que o ensinamento do filósofo”. Poderia ter tido uma resposta tão desconcertante como esta, ou não?

FM O desconcerto é um dom, sim, porém causa hoje um efeito retórico, no sentido de que há uma hipocrisia reinante que busca nele apenas um divertimento, a figura circense, engraçadinha, previsivelmente “desconcertante”. Era outro o cenário em que agiu o Surrealismo dentro de tuas referências. Equivalências? Teríamos que pensar na maneira violenta como a privacidade tem sido assentada como uma mercadoria. E o que a filosofia e a arte têm feito a respeito.

AMG Referia-me também ao diálogo que encontro na sua obra entre o pensar e o sentir, entre o ensaístico e o poético, tendo em conta essa nudez a que se refere Ernst…

FM São vasos comunicantes que estabelecem uma íntima relação entre arte e vida, desde que não se comportem como se o pensar e o sentir estivessem desligados. Tampouco o faço por puro modismo de quebra de barreira entre gêneros. Há muito empastelamento anódino sob tal artifício.

AMG Pode entender-se Estudos de Pele como um enredo ficcional, viajando entre os diversos géneros literários (poema em verso ou em prosa, drama, ensaio…), em que as vozes das mulheres nos contam como o mundo as abandonou e nos falam da possessão?

FM Foi pensado exatamente assim, no que diz respeito ao primeiro aspecto de tua abordagem, ou seja, um enredo ficcional, não linear, mesclando gêneros e técnicas e mesmo apropriando-se, ainda que raramente, de algumas anônimas sutilezas alheias. Contudo, não se trata de livro atento apenas às “vozes das mulheres”, mas sim essencialmente ligado à expressão do feminino, à sensibilidade – essa metade arrancada de todos nós.

AMG Mas há uma intensidade que se reflecte mais, a seu ver, no mundo feminino?

FM A grande violência advinda deste aspecto se reflete na mulher, sendo ela quem a sofre de maneira mais intensa. O livro dá às personagens femininas uma especial atenção – inclusive porque vem delas uma réstia de sensibilidade que talvez se mantenha exatamente pela consciência do padecimento. Essas mulheres, no entanto, desconhecem a raiz do sofrimento. Diferem, sob este aspecto, das personagens femininas de um livro que está por sair, Duas mentiras, onde notamos a presença não mais da perplexidade diante de tópicos como crime, violência, dor, sujeição, mas sim entonações de sarcasmo, manipulação, escárnio… Se observarmos bem, em Estudos de Pele, as figuras masculinas, anônimas em boa parte do livro, mas identificadas em algumas passagens (Alfredo, D. Leopoldo, o garoto do capítulo “Rastros de um caracol”), são plenamente ativas, enquanto as mulheres representam a parte passiva.

AMG Atravessa este livro toda uma herança da história feminina, na opressão e na astúcia que se lhe juntou. Ou não?

FM Há bem menos sinais da astúcia do que da opressão, eu diria. Os capítulos que abrem (“Sombras raptadas”) e encerram (“Modelos vivos”) o livro reúnem as mesmas personagens bíblicas: Ester, Madalena, Maria, Marta, Raquel, Rute e Sara – isto dá uma falsa ideia de circularidade, intencional, onde embaralho os conceitos de opressão e astúcia, como sugeres. Peguemos um caso, o de Madalena. Na primeira parte a personagem é demasiado ingênua ao mostrar-se por inteiro – a certo momento indaga a Deus: “O que fui, senão tua prisioneira, bastarda e incestuosa, crente pusilânime de que o prazer reanima a fé?” Ela retorna na parte final com uma grande voltagem de astúcia, confundindo-se no poema duas vozes femininas, ou seja, quem é a verdadeira Madalena que ressurge em “Flagrantes da fé” – a que se assemelha à personagem histórica Erzsébet Báthory, a condessa sangrenta tão bem retratada por Alejandra Pizarnik, ou a anônima esposa de Gustavo, que narra a história e deixa escapar que há mais ênfase no olhar de seu marido quando ela o faz cativo? Acho que essencialmente atravessa o livro o componente opressivo, através do qual a astúcia se prepara para o momento seguinte, em que é sugerida como uma decorrência, sem que se faça tão presente quanto a opressão.

AMG Erzsébet Báthory que Valentine Penrose, tão acarinhada pelos surrealistas, tratou de forma esplendorosa no seu livro dedicado à condessa sanguinária, espécie de Gilles de Rais no feminino… De facto, Estudos de Pele tem esse lado do romance negro, essa luminosidade terrífica com aroma a açafrão húmido e a sangue. Ambos tratam o mal com cintilância…

FM A própria Alejandra Pizarnik escreveu seu belíssimo La condesa sangrienta a partir do livro de Valentine Penrose, claro. E tocas aqui em algo que não se percebeu ainda na leitura do livro, sua intimidade com o romance negro, o entrelaçamento entre erótico, místico, criminal, recursos sombrios, as cartas de prisão, a crônica policial descrevendo cenas e estilos de crime, feitiçarias, raptos, confissões, tudo isto que se encontra também em Sade, cuja leitura na adolescência foi fundamental para mim.

AMG Detecta-se, talvez por isso, um erotismo poderoso em Estudos de Pele, como, aliás, na sua restante obra: “Extinta a vida dos sentidos, nada mais nos resta no espírito” como refere Aquinauta que cita no seu Alma em Chamas?

FM Toda escrita é resvaladiça. Nada faz sentido além do escorregadio. O homem está sempre a fugir de si, e há algo de erótico neste jogo de máscaras. Mas o efeito do crime tem inocentado inúmeros assassinos. O erotismo em Estudos de Pele é utilizado de várias maneiras, incluindo a lascívia, um tipo discreto de suborno, o encantamento mágico. Evidente que já em Alma em Chamas Aquinauta compreendia que o sentido extrapola o juízo e o objetivo. Daí que o aproximes tão bem de uma erótica. Está perfeita a tua leitura. Mas recordemos que Aquinauta não se referia a um sentido encontrado, mas antes a um sentido buscado. Eis o que somos, inclusive eroticamente: aquilo que buscamos.

AMG Diria que somos mais aquilo que desejamos do que o que buscamos. Não é esta uma civilização do desejo?

FM Em uma sociedade pautada pela conquista, a concorrência, a ganância etc., não se pode falar em desejo. O próprio termo civilização já não tem mais cabida nas sociedades contemporâneas, mais afeitas à barbárie. A rigor, nem seria correto falar em busca, porque somos induzidos a um sistema de rivalidades.

AMG Há excesso de realidade, de razoabilidade. O poeta procura-se, por isso, fora de si?

FM A crônica policial é o nosso livro sagrado. Se fôssemos hoje tratar de um Novo Testamento ele seria formado por uma recolha de nossa crônica policial. Vivemos em uma sociedade criminal, recheada de seqüestros, subornos, falsos depoimentos, prevaricações, terrorismo, e crimes passionais – sim, ainda se mata por essa falsa ideia de amor. Podemos chamar a isto de excesso de realidade? Os velhos monstros da razão, sim.

AMG E quando o poeta se procura, fá-lo dentro de outras vozes como as deste livro recheado de intertextualidades (da Bíblia à crónica policial)?

FM A intertextualidade, essa, não me interessa como um recurso da modernidade, um exercício de afetação intelectual, mas sim como uma afirmação de diálogo, da busca de cumplicidade com a voz que me é alheia, mas que procuro incorporar não propriamente ao meu discurso, mas antes à minha vida, que é – aceitem ou não – a de todos. Jogo de tal forma com este aspecto da intertextualidade que chego a criar uma personagem fictícia apenas para citá-la. A citação não é apenas transcrição ou intimação judicial. Trata-se também de uma confissão, a de que não me quero sozinho no mundo. Pensada como uma transgressão ou mero recurso técnico, a citação reflete o caráter, como qualquer outra atitude.

AMG Então como relaciona autobiografia com ficção?

FM Como um recurso para pôr em xeque a vida do leitor, que é invariavelmente um prolongamento da escrita. A ficção como um cadinho de realidades e vice-versa. Bem sei que tudo isto se tornou complexo porque a ficção romanesca já de muito foi atropelada pela voracidade da mídia em forjar realidades. Neste caso, o autobiográfico vem à tona como um resgate da essência do ser, embora também possa ser apenas um ardil a mais para a anulação desta mesma essência. Isto requer atenção maior da parte do leitor e responsabilidade ainda maior da parte do escritor.

AMG A escrita como prolongamento de um Eu, ou a vida como prolongamento da escrita? Que vem antes, primeiro?

FM A dúvida impera sempre, a inquietude, o desconforto, a curiosidade, estes são os princípios motores dessa complexa relação entre vida e escrita. A rigor nenhuma das duas personagens se sente menos protagonista que o outro. Tratássemos de um filme – e de certa forma não passa disto – nenhum dos dois ia querer o papel de bandido.

AMG É seu um discurso das origens e da origem do discurso que se materializa numa poética da decifração, à semelhança do seu “pai” Blake?

FM Tradução, premeditação, compreensão, leitura – tudo isto é decifrar as origens. Não faço a menor ideia do que pode motivar as pessoas a escrever nem quero abordar aquela ideia do sujeito que se sente feliz sendo um artista somente quando essa condição coincide com a glória… A toda hora, nos empanturramos de experiências, o encontro casual na rua, um filme, o som de algum objeto que nos remete a uma lembrança, uma frustração, tudo. Para mim, essas sensações todas formam uma grande malha de conexão com o que sou.

AMG Vê-se, então, como?

FM A resposta está sempre na pergunta, naquilo que se indaga. Vejo a mim de muitas maneiras, mas isto se passa com toda a gente. Há a existência comum, vulgar, trivial, cuja origem compartilhamos inconscientemente. William Blake tinha esta percepção, embora acentuadamente sob um aspecto místico. Não foi a minha primeira leitura, mas sim o primeiro impacte dentro deste âmbito de uma polifonia de vozes. Temos que provar do outro para tocar o que somos. Tenho que me misturar ao mundo para identificar-me. Não procuro uma origem comum, mas sim me inteirar do que seja Floriano Martins o suficiente para garantir um diálogo honesto com o outro.

AMG Não deixa de existir um trabalho de colagem em Estudos de Pele, que curiosamente, se alia a uma outra faceta sua, a de artista plástico. Como se fundem palavra e imagem?

FM A exemplo do que se passou com Alma em Chamas (1998), Estudos de Pele teria na capa uma colagem minha, que dava continuidade a um entrelaçamento entre gêneros e técnicas, o que acabou não sendo possível por falta de sensibilidade da editora. Um raro aspecto negativo. O livro está escrito, e isto importa além de sua publicação. Toda a minha geração cresceu sobre o influxo do cinema. E cinema é essencialmente colagem. O cinema põe em xeque uma arte purista, no sentido dela originar-se de uma só matéria. Evidente que pode seguir sendo realizada por alguém em isolado, mas a ideia de fonte, as origens, isto o cinema ajudou a questionar tanto quanto a máxima de Lautréamont de que a poesia deve ser feita por todos. E isto só funciona se cada um de nós fizer de tudo. Se perdermos a ideia estanque das propriedades sem comunicação entre si.

AMG As suas colagens são, de alguma, forma diarísticas, espécie de anotações, memórias, teatro de imagens? São poemas?

FM Sim. São essencialmente poemas, um tipo de caligrama que já não se limita ao arranjo tipográfico. A imagem continua sendo uma representação da escrita. Vivemos em uma sociedade esmagada pela imagem, mas em grande parte essa condição opressiva vem de nossa relação mal digerida com a escrita. A rigor, somos sufocados pela ignorância. Quanto à referência às anotações, é tudo o que fazemos, por mais que esteticamente estabelecido como arte, tudo não passa de anotação.

AMG Há um lado visceral e aparentemente torrencial na sua escrita poética, aliado a um fulgor ensaístico. Ligam-se, portanto, imaginação transformadora, loucura e razão?

FM Entendeste bem a questão, o que prova a menção ao “aparentemente torrencial”. Sei dos riscos de se confundir a intensidade de um discurso com sua entoação verborrágica. Muito do que se tem hoje alardeado como pós-moderno ou neobarroco não passa disto. Não é só a imaginação que é transformadora; também o são a loucura e a razão. E todas podem ser apenas deformadoras.

AMG No fundo, vive dentro dos propósitos da acção surrealista, recusando o naturalismo e a expressão unicamente interpretativa do real?

FM Breton dizia que os naturalistas eram demasiado otimistas. Eu me considero um pessimista produtivo, mas tenho certa rejeição a essa terminologia que resulta ser excludente. De um lado ou de outro. Breton propunha um risco tão intenso, que não dava para deixar de fora quem não o atendesse em sua verticalidade. Nem ele próprio o fez, e o princípio era mesmo outro. É inaceitável a forma grosseira com que se tem buscado reproduzir o real. É um tipo falseado de naturalismo, hoje orquestrado por uma indústria que o anula justamente na maneira como o evidencia.

AMG De alguma forma há um lugar da infância que assalta os seus textos?

FM Nunca estamos longe da infância. Há quem prefira dizer de outra maneira: jamais nos livramos da infância. A psicanálise adora esta nossa má compreensão do assunto. Há todo um capítulo em Estudos de Pele, “Rastros de um caracol”, em que se tem a presença de um garoto às voltas com o que lhe foi determinante para o resto da vida. Mas a todo instante as personagens deste livro estão voltando à infância.

AMG Ou seja, é o mesmo livro que tem vindo a escrever, igualmente oriundo desse lugar do menino, sempre aliando drama e lirismo?

FM Sempre estamos neste embate interminável com nossos fantasmas. Há autores em que a variedade estilística denuncia, mais do que uma voracidade, certa instabilidade emocional. Mas há também o risco de retórica, diluição, nesse repetir-se à exaustão. Interessa-me sobremaneira expressar conjuntamente drama e lirismo porque esta é a nossa existência, não extraímos de nós um ouro puro, mas sim uma pedra mestiça que nos devolve à vida justamente pela mistura.

AMG “Tudo que somos está fora de seu lugar,/ festim de simulações,/ sistema sem princípio”? Por isso escreve?

FM É um conjunto de ações e reações, não simplifiquemos. Por mais que eu tente esclarecer o motivo por que escrevo, haverá sempre algo em mim que escreve por outra razão. Apenas escrevo.

AMG E onde persiste o amor, como questiona um dos seus poemas?

FM Em toda parte, é um dos mais obstinados e crédulos dos sentimentos. Tem resistido a tudo em toda a história da humanidade. Em nome da igreja, da política, sobretudo da dúvida. Creio que mais temos duvidado do amor do que o afirmado. Convertido em veneração, negociação, saudosismo, andou por todas as partes e atualmente é apenas fílmico, embora a crônica policial esteja repleta de crimes passionais. Lendo a poesia que se publica hoje é bem possível algum cronista futuro enunciar que os poetas estavam muito aquém do amor.

AMG Amor, liberdade e poesia lado a lado na definição do amor de Breton citado no seu prefácio a O Começo da Busca – O Surrealismo na poesia da América Latina (2001), que inverte o título da obra de Octavio Paz, La Búsqueda del Comienzo. Trata-se de uma antologia de poetas acompanhada de um estudo, um historial da prática do Surrealismo na América de Língua Portuguesa e castelhana, incluindo ainda um conjunto de entrevistas. Essa busca de que fala mal começou?

FM Este é um livro isolado se fizermos um mapa editorial brasileiro e buscarmos suas relações com a América Latina. O abismo entre as duas culturas – se definidas apenas do ponto de vista idiomático – constitui já um vício histórico, um tipo de droga legalizada. Eu posso publicar 10 livros iguais a este e nada se altera. O que se passa é que a cultura brasileira não pode propor diálogo com outra cultura enquanto não existir por si mesma, e não existirá enquanto não compreender suas raízes e brigar por elas. Não importa quanta exceção se produza aqui, seguimos colonizáveis. Não nos livramos de tal estigma.

AMG A presença do Surrealismo do Brasil (com pouca penetração, no seu entendimento, por causa da tradição positivista) não só é desconhecida, mas ocultada (e por vezes negada) pela crítica e pelo poder cultural?

FM É a tal relação de intimidade que o Surrealismo propunha entre vida e obra. Isto é um inferno para a intelectualidade brasileira, que jamais viu na criação uma razão de ser. Antes ao menos havia uma reação por conta do catolicismo aqui imperante, mas hoje é apenas ignorância, repetição acrítica de um modelo preconceituoso.

AMG Enquanto estudioso do Surrealismo, tem procurado, de alguma forma, evitar aquilo que chama “falseamento da história”?

FM [risos] Eu tenho cobrado isto a todo instante, inclusive de mim. A memória é subornável. É mais: é uma grande cafetina. A história está nas mãos desta Sra. Agora, não nos esqueçamos que a história tem um relator: o homem.

AMG Considera ter havido negligência brasileira para com a cultura dos seus vizinhos? E em Portugal, cuja poesia tem acompanhado de perto, que fizeram da herança surrealista?

FM Lendo as cartas do António Maria Lisboa se percebe o quanto que ele chamava a atenção para os riscos da ortodoxia. Este sempre foi o grande dilema da recepção do Surrealismo em outras culturas, evitar a tentação de ser mais real que o rei. Os dois nomes fundamentais do Surrealismo em Portugal estão ainda vivos: Mario Cesariny e Cruzeiro Seixas. O desdobramento proposto por ambos, distinto entre eles, foi bastante construtivo e evidente, o que surpreende que um estudioso como Perfecto Cuadrado trate do assunto como um capítulo vencido da história portuguesa.

AMG Molina disse, numa entrevista, que “nenhum poeta pode deixar de querer o Surrealismo”. Entendida como referência histórica, e na acepção de um humanismo poético, a afirmação faz sentido, mas não será excessiva?

FM Mas o que não é excesso no Surrealismo? Considerando os inúmeros exemplos de uma poesia hispano-americana que hoje caiu no ardil de um novo formalismo, como é o caso do neobarroco, que faz esta poesia retroceder aos seus primórdios modernistas – o que equivale, em termos brasileiros, ao parnasianismo –, eu acho que Molina estava correto ao afirmar aquilo, pensando não propriamente em uma receita surrealista, mas sim no espírito de liberdade que permeava o Surrealismo, enfim, que o poeta, qualquer, não seria poeta sem defender aqueles princípios, que em circunstância alguma se pretendiam escolásticos.

AMG A dimensão política da arte tem sido motivo de reflexão sua, bem como tem feito uma crítica feroz à poesia que se tem vindo a praticar no Brasil há algumas décadas. Mais uma vez solitário?

FM É que os poetas acham que dão em árvore ou que compram joguinhos de construção poética em livrarias. Uma gente sobrenatural, talvez. Alienados ou cínicos? É irritante o fato de que ninguém se compromete com nada neste país. Vivemos um estado de letargia da indignação. Engraçado é que, a todo instante, um tolo se auto-proclama a antena da raça. O poeta não faz ideia do quanto é cúmplice do crime que nos deforma.

AMG Poeta, ensaísta, tradutor, editor, jornalista, director com Claudio Willer, da revista Agulha, coordenador do projecto editorial Banda Hispânica… Qual a faceta que impera em todas as suas actividades, a do poeta?

FM Nenhuma dúvida. Tudo isto são decorrências do poeta. Não tenho formação acadêmica. Sou o franco-atirador, o autodidata. Esta postura se reflete em tudo o que faço, onde a versão oficial é a primeira a ser posta em questão, mas em momento algum evidenciando o underground apenas por sua condição marginal.

AMG Como escreveu André Breton, “a poesia faz-se na cama como o amor”? Ou seja, é nesse estado de “beleza convulsiva” que se escreve para “salvar” a vida?

FM Eu não diria salvar, termo já melodramaticamente incorporado por Hollywood. Mas é evidente que a poesia se faz na cama como o amor. Ela se torna presente em nós não apenas no verso, mas na maneira como nos identificamos com cada coisa em nossa vida, uma canção, aquela imagem de repente referida de uma exposição, o amor, caminhar pela rua com um amigo, um sonho, saudade, esta entrevista… Onde a intensidade do que fazes? Brincando com os filhos, pesquisando sobre qualquer tema, abrindo um vinho, recordando a cena marcante de um filme… Por onde a vida se torna convulsiva? A poesia não responde. A poesia é a grande fonte de inquietudes. Trate de viver, não de vivê-la. Ninguém consegue viver a poesia. Mas que delícia que é cada um tratando de viver a si mesmo…



 [2005]

[Entrevista concedida a Ana Marques Gastão. Originalmente publicada no portal Cronópios, São Paulo, 19/04/2005. Integra o livro O hábito do abismo (Entrevistas com Floriano Martins), de Márcio Simões (ARC Edições: Fortaleza, 2013).]





UMA AGULHA NA REDE DA MESTIÇAGEM | Entrevista a José Ángel Leyva



JOSÉ ÁNGEL LEYVA Comencemos por el poeta Floriano Martins, un cosmopolita en su Aldeota, Fortaleza, donde reside para dispararse incesante al mundo de los cibernautas. En esa perspectiva ¿qué significa novedad para Floriano?

FLORIANO MARTINS A novidade é uma colheita, ou seja, há que plantá-la. Mas é também uma colheita do espanto, pois o que mais me atrai nela é sua capacidade de surpreender. Para tanto, é preciso estar conectado ao mundo com todos os sentidos, entregue a essa permuta de alta voltagem do espírito que a vida nos ensina a viver. Curioso é que a mídia, que mais afirma interesse na novidade, esteja sempre amparada no estabelecido. Inclusive o que ali se apresenta como novo é sempre uma diluição, do ponto de vista estético, sempre um retrocesso, uma máscara, uma fraude. Evidente que a viagem pela Internet permite o encontro com inúmeras formas da novidade. Mas há que saber navegar, sempre. Há que saber navegar…

JAL Reconoces en tu escritura poética el embelezo por el discurso surrealista en lo que a la estética se refiere. Muchos poetas influenciados por ese ismo han negado su participación e influencia, incluso el haber pisado alguna vez sus terrenos. Tú no sólo recorres dicho territorio sino que exploras su subsuelo en América Latina. ¿Puede decirse que insistes en cultivarlo? ¿por qué?

FM Incontáveis motivos: as imagens cortantes, vertiginosas, estimulantes; o caráter da escrita; a atenção pelos grandes abismos da realidade; a percepção intensa de um sentido de recusa; a incessante aventura exploratória dos mistérios que definem a existência humana; o diálogo audacioso com os lugares comuns… Evidente que a relação com o Surrealismo não pode se restringir ao ingresso em uma formação grupal. Eu já vivi uma experiência de grupo e ela foi algo desastrosa, porque há filamentos da ortodoxia que se enredam na prática das relações. Mas observemos como certa indeterminação, no que diz respeito à afinidade de alguns poetas e artistas com o surrealismo, esteja ligada mais a um sentido de oportunismo do que propriamente a um questionamento adequado. O que em muitos casos poderia ser uma crítica consistente em relação às falhas eventuais – e sabemos que elas são inúmeras –, acaba por se transformar em um jogo desqualificado de egos indomáveis. A percepção do Surrealismo no continente americano tomou um caminho algo distinto, sobretudo considerando o fato de que a estadia dos franceses (sempre capitaneados por Breton) nos Estados Unidos e no México esteve pautada pela formação de um gueto, uma espécie de colônia europeia, onde o francês era mantido como língua única. Uma contradição com a ideia de Artaud ao considerar o surrealismo como uma “nova espécie de magia”, ou da esperança – que acabou sendo frustrada – de César Moro, de que se tratasse de uma “cita de las tormentas portadoras del rayo y de la lluvia de fuego”.

JAL Empleas la imagen del espejo para indicar la insensatez del hombre ¿Qué ves ven esas criaturas? ¿Su engañosa figura endiosada o su camino inevitable hacia la muerte?

FM O que o espelho reflete de cada um de nós nem sempre está visível em nosso próprio entendimento do ser. Se as relações humanas foram se tornando um quase inquebrantável jogo de aparências, isto se deve ao fato do homem haver tecido um abismo entre imagem e identidade. Para reconhecer a si mesmo é preciso agora deformar espelhos? Mas quem diabos é esta criatura que a todo instante se evita e cobra identidade apenas nos demais da espécie? Estas são leituras clássicas da poesia em todos os tempos. Mas quem garante que o homem em nossos dias esteja interessado em refletir (sobre) sua humanidade? O fato de havê-la perdido, já nos dá a resposta. Por outro lado, o que tem feito a arte – quando o faz seriamente –, senão põe o homem diante de um espelho? Talvez o homem mereça mesmo o estado em que chegou, e não esteja mesmo interessado em quem se preocupe com essa humanidade perdida, cuja relevância jamais percebeu.

JAL ¿Qué le preocupa al poeta Floriano: la muerte o la palabra muerte?

FM Preocupa-me esta separação que tua pergunta sugere, como se acaso uma coisa fosse a experiência de vida e outra a linguagem. Ruína ou pesar, essa entidade é parte de nossa vida no momento mesmo em que a iniciamos. Consciente ou não, está presente em nós. As crianças não têm consciência da morte nem da linguagem. Qual dos dois choques de consciência será mais determinante na vida delas? Não será um único abismo? Os poetas desafiam a morte ou a palavra morte? E por onde se alastra o conceito de morte? Considerando certa primazia do domínio da linguagem, descartando sua relação intensa com o viver, eu diria que estamos nos afastando tanto da morte que um dia ela não será mais do que uma palavra. Então já estaremos demasiado mortos para perceber o equívoco em que nos metemos. Por outro lado, o que tem feito o homem em prol da palavra no sentido de que a mesma o salve de si mesmo? São questões filosóficas, no geral. No livro de registros de uma delegacia de polícia a situação é outra. A rigor o homem chegou a uma dicotomia grosseira: autor e vítima do mesmo crime. A criminalidade tornou-se um dado assustador e determinante de nossas vidas – não me refiro simplesmente ao jogo passional dos disparos, mas a uma sofisticação que envolve tanto corrupção quanto pedofilia. Nada mais débil hoje em dia do que a ideia de um transgressor. Evocar a transgressão é não conhecer os códigos em que essa linguagem atua. Como é possível dizer: ah tudo o que eu queria era um poema de amor? Então não distingo uma coisa da outra, porque posso estar vivo ou morto pela palavra, e isto não fazer sentido algum.

JAL ¿Qué papel desempeñan en tu poesía la plástica y la música, ¿Cómo las incorporas o las refieres?

FM Talvez eu pudesse dizer que se trata de uma questão de oportunidade, considerando o fato de que meus pais ouviam muita música e que era igualmente intenso o acesso a edições de obras plásticas. Mas o que havia de mais impressionante em casa, para uma criança, era a quantidade de livros da biblioteca de meu pai. Então eu presumo que a diversidade com que as coisas se apresentavam diante de mim tenha sido determinante. Mas claro que tudo isso se encaixava em certa natureza insaciável, algo que segue caracterizando tudo o que faço. O fato é que o mundo não nos absorve através do que lemos, mas antes através do que ouvimos, vemos, tocamos, cheiramos, degustamos. A leitura – compreendida em seu aspecto habitual – não é um dos sentidos humanos, mas sim a conseqüência da atuação plena desses sentidos. Em grande parte a fixação dos intelectuais pela leitura vem de seu temor de misturar-se à matéria queimante da existência. Quando escrevo – e nisto é preciso que se diga que não penso senão raramente em um poema em isolado – estou sempre imaginando toda uma plasticidade, dinâmica, argumento etc. É como se me sentisse mais um dramaturgo do que propriamente um poeta. Imagino o poema-livro como algo que aja tridimensionalmente.

JAL Entre una poesía del lenguaje y una poesía inquieta aún por el hecho mismo de la vida, más preocupada por conmover, tocar al lector, es que advierto se mueve tu poesía. Quiero decir que no es experimental hasta sus últimas consecuencias, no pretende el balbuceo, el juego fonético o la segmentación semántica, sino que se desliza por una lógica más o menos incluyente. ¿Qué opinaría un surrealista de ello?

FM Muitos surrealistas diziam – dizem ainda – que a poesia está em outro lugar. Mas qual seria este outro lugar? Quantas vezes o estado de verdade imediata, defendido por Tristan Tzara, foi além das obras de circunstâncias a que se referia André Breton? O primeiro leitor que um poeta deve arriscar-se a tocar é ele próprio. É impressionante a quantidade de poetas que andam pela vida sem se deixar tocar pela poesia. Apesar do surrealismo a poesia continua sendo percebida como um jogo de palavras, apenas. Para mim, o experimental não dissocia instrumento e sensação. Quando digo que o que nos impressiona se imprime em nosso espírito isto não é de todo apenas um jogo de linguagem. Mas é necessário que haja uma verdade nisto. Caso contrário, a comoção torna-se panfleto, regra. O instrumento é um recurso. Entendemos bem quando o assunto é um piano. Ah sim, trata-se de música… Mas quando o verbo está em questão… É a minha vida que supera a escrita e nunca o contrário, por mais que eu tenha pleno domínio da linguagem.

JAL Tus poemas a menudo se presentan como un panteón lírico, donde uno puede seguir puntualmente la huella de tus afectos y tus influencias, o mejor digamos tus lecturas, no siempre vanguardistas. ¿Qué hay de cierto en lo que digo?

FM Não cabe essa distinção. Não vejo em que circunstância a poesia não se identifique com o lírico. Claro que não me refiro a panteão, mas antes ao simples ato da escrita. Estamos a conversar – o poema é uma forma de diálogo, não? – com o que se passa diante (e dentro) de nós. Tivemos uma sobrecarga no que diz respeito ao termo vanguarda e isto por vezes gerou um mal-entendimento do que possa ser substancioso. O conceito de vanguarda foi tanto explorado que vive hoje um desgaste excepcional. Mas há que entender que uma coisa é o recurso, o diálogo, a caixa de Pandora, e outra a maneira como o objeto final, saído desse diálogo, se apresenta. Da maneira como colocas a questão, há uma distinção fundamental em termos de caráter da escrita no que diz respeito a sua estrita relação com quem a escreve.

JAL Para darle paso a otra temática, evoco la pregunta que te haces en un verso de tu poemario Alma en chamas (Alma en llamas): “Qué hombre habita en mí?” ¿Tiene respuesta esa cuestión?, ¿hay alguien diferente a Floriano que ocupa su existencia y dicta su poesía?

FM Há inúmeros. Não diria que propriamente distinto de mim ou que dite, em isolado, o que escrevo. Não creio em voz própria que não seja a consonância de uma multidão de vozes. Algum crítico já observou a condição sinfônica de minha poética e devo estar de acordo. Somos, ao menos em parte, aquilo que nos consome. E pôr em dúvida o homem que lhe habita é o mínimo que um poeta pode exigir de si antes de pretensamente declarar-se uma antena da raça.

JAL Me has dicho, en nuestras largas conversaciones por las calles y las playas de Fortaleza, que Brasil sólo mira a Brasil, asombrado, quizás, por su propio gigantismo geográfico o quizás confuso por su enorme y bello mestizaje. Tú mismo eres una muestra de que hay búsquedas para tocar y ser tocado en y por el exterior. ¿Excepción o regla?

FM Em boa hora esta menção à mestiçagem. A rigor sempre estivemos na alça de mira de uns obcecados pela pureza, os tementes de todo tipo de miscigenação, racistas que buscam eliminar a fusão, o encontro, o encantamento que somente o mergulho no outro propicia, e o fazem por incompetência, por apego a uma condição mesquinha que nada tem a ver com o argumento de defesa de uma cultura. O que há de mais forte na cultura brasileira está em sua mistura, o que acaba por atropelar a muitos a quem simplesmente falta fôlego para compreender o mundo em pleno torvelinho de experiências inesgotáveis. Não temos problema de arritmia. O que temos é um excesso, de ritmos e deuses, cuja mescla tempestuosa por vezes atordoa. Somos a terra plena do transbordamento. A ideia de um gigantismo tem uma conotação dúbia: por um lado nos cega em relação às afinidades culturais evidentes e por outro lado desperta certa inveja no tocante ao que nos é aparentemente superior. Não é que só olhamos para nós mesmos. Muito pelo contrário: somos cegos de tudo, inclusive de nós mesmos. Tudo o que era mais visceral e sofisticado nas imagens poéticas de autores como Celso Luiz Paulini, Claudio Willer, Rodrigo de Haro e, sobretudo, Roberto Piva, poetas identificados como de uma geração dos ’60, por exemplo, nada foi percebido pela crítica, e isto se deu porque essa poesia rompia com certo padrão de formalismo, sobretudo considerando então a passagem de bastão da Geração de 45 para o Concretismo. Então não é nossa mestiçagem que suscita uma confusão, mas sim a linha dura de um positivismo que temos entranhado em nós, cujo beletrismo é apenas uma de suas facetas.

JAL Además de poeta, traductor, ensayista y editor electrónico eres un fuerte crítico de la poesía en tu país, el cual hay que reconocerlo posee una rica tradición poética ¿Qué rescatas de esa herencia?

FM A ideia de uma tradição implica em transmissão, em reconhecimento. Neste sentido, não se pode falar em tradição lírica no Brasil, exceto se pensarmos na grande linha parnasiana que define toda a nossa trajetória poética. Temos que pensar bem nisto. O formalismo ornamental e edulcorado seria então a nossa tradição? Nas últimas décadas tivemos uns rapazes que retalhavam a sintaxe, primavam pela incompreensão, simpatizantes da ruptura a todo custo, inclusive a custo do entendimento dela própria. Ainda estão por aí alguns desses rapazes. Não, não possuímos uma rica tradição poética. O que se passa é que em alguns casos a poesia brasileira é melhor conhecida no exterior do que em casa. Temos uma tradição outra, um rio subterrâneo que tem sido grosseiramente desprezado. Talvez os mexicanos se lembrem ainda de José Santiago Naud (1935), cujo livro Piedra Azteca teve unicamente uma edição mexicana (Papeles Privados, 1985). O próprio Jorge de Lima, para muitos a maior expressão poética do país, é nome de pouca circulação. Ao contrário, abundam as louvações a poetas nitidamente de segunda linha, como Mário e Oswald de Andrade. A melhor herança a ser resgatada não é aquela que se detém em nomes, mas sim no caráter que a determina. A cultura brasileira está muito perigosamente contaminada – o que se acentua mais e mais nos dias de hoje – por um sentido muito particular de decomposição. Não se trata apenas dessa avalanche de corrupção que a mídia anuncia a todo instante. Trata-se de uma depravação de senso ulterior, estamos nos desfazendo por falta de acreditarmos em nós mesmos. Estamos colhendo agora o fruto de toda uma história de falta de atenção para o que verdadeiramente somos. Fazer a defesa agora de uma identidade cultural – a despeito de toda a instância retrógrada que envolve o tema – é de um cinismo, de um oportunismo descarado, coisa de gente que não quer senão seguir descarnando o cadáver dessa cultura. Até o último instante, sem drama ou carnaval, quando então se mudam todos para um outro paraíso fiscal.

JAL ¿Cómo se conforma desde tu punto de vista la República de las letras (de la poesía) en Brasil?

FM Toda casta intelectual se organiza sempre no sentido de cooptação com o poder. Tal concubinato fez de nossa república das letras uma jovem senhora muito dedicada aos prazeres da carne, relutante em considerar a existência do espírito. A ausência de uma tradição crítica – e refiro-me não à crítica de circunstâncias, mas àquela área da percepção interessada em evidenciar eventuais equívocos de um texto, propondo-se a iluminar suas zonas escuras, sem uma determinação judicial que venha a eliminar a obra em questão por discórdia estilística ou outro mazelo existencial qualquer –, pois bem, essa ausência, já clássica entre nós, brasileiros, contribui para a persistência pasmada nos mesmos erros, em muitos casos os mais primários.

JAL Sin ánimo de competencia y de comparación, pero tomando en cuenta tu trabajo editorial y tu larga experiencia como entrevistador ¿Cómo percibes el desarrollo de la poesía en tu país con respecto al resto de Iberoamérica (incluyendo a Portugal y a España)?

FM Creio até que seria irresponsável a comparação. Uma coisa é uma seleção de grandes poetas – e isto se pode achar na Espanha, em Portugal, no Brasil e na América Hispânica (não esquecer que aí a aventura teria que enveredar por 19 países, com suas peculiaridades magníficas). É bem provável que os nomes sejam desconhecidos para além de sua restrita área de atuação. Ainda que de gerações distintas, não creio que gozem do conhecimento internacional que merecem poetas como José Ángel Valente (Espanha?), Luís Miguel Nava (Portugal?), Roberto Piva (Brasil?) e Ludwig Zeller (Chile?). Outra coisa é acreditar que essa resplandecente minoria possa vir a constituir uma competência. Uma característica marcante do espírito dos poetas brasileiros, em linhas gerais, é o provincianismo, e digo isto no sentido de que jogam muito com as aparências – da escrita e do caráter, posto que separam uma coisa da outra. Isto faz com que se tornem reféns de uma compulsiva novidade, que mudem de roupa (a linguagem, ah esse garfo e faca da linguagem!) ao sabor do convite que recebem para um evento de turno. Há os que não, sim, há os que não. Agora me lembro que antes de iniciarmos nossa conversa eu havia me decidido a não citar nomes. Isto causa uma confusão medonha, porque somos propensos a nos identificarmos com os personagens errados. Imagine se digo aqui um nome, por exemplo Hilda Hilst (uff!, esta por sorte já morreu), e ela própria, sim, ela própria, não entende que essa minha afirmação é uma maneira de me preocupar com algo que me é afim… Chega de citar nomes. Todos são os brilhantes poetas que se imaginam ser.

JAL Por último. ¿Estás convencido de que el proyecto Agulha, además de poner en contacto a los escritores de América Latina y el mundo, pueda ser un factor de calidad y avance en nuestras letras, digamos ¿una aguja sobre el globo de la complacencia y la endogamia?

FM Não tenho dúvida alguma quanto a isto. A leitura conjunta dos editoriais da Agulha aponta neste sentido, confirmando a pauta abrangente que temos propiciado em 4 anos de atuação. Decerto que temos um número de leitores que deve ser considerado. Contudo, pertencemos a um mundo virtual, com suas rejeições da parte de uma realidade impressa que ainda não percebeu que fere a si mesma ao nos refutar. Evidente que o que a Internet nos propicia possui em si a mesma carga de ambigüidade que qualquer outro instrumento. Sempre será possível salvar ou ceifar uma vida com a mesma arma.

[2004]

[Entrevista concedida a José Ángel Leyva. Originalmente publicada em La Jornada Semanal. Suplemento cultural do jornal La Jornada. México, 10/10/2004. Integra o livro O hábito do abismo (Entrevistas com Floriano Martins), de Márcio Simões (ARC Edições: Fortaleza, 2013).]





quinta-feira, 9 de outubro de 2014

SÁBIO IMPREVISTO | Entrevista a Álvaro Alves de Faria



ÁLVARO ALVES DE FARIA O que representa este Estudos de pele na sua obra?

FLORIANO MARTINS Gosto do que diz sobre este meu livro o artista plástico Valdir Rocha, atento ao fato de que o mesmo “contém versos que carregam poesia, versos típicos de prosa e até despidos da poesia corrente, prosa que leva poesia, prosa que é prosa mesmo, e por aí vai. Diz-se a certa altura, com razão, que ‘Não estou bem certo se o domínio de uma linguagem afiança uma poética'. Reúne poemas e alguns não-poemas; jamais antipoemas. Ilude sempre. Sinceramente, é muito difícil indicar-lhe o gênero. E isso está longe de ser defeito porque é virtude. Diria – só para não omitir uma classificação – que está embebido de poesia. Cabe a quem recebe as confissões do texto ‘aprender a lidar com o imprevisto'“. Isto é o que se poderia dizer de minha poesia como um todo, Álvaro, desde que acentuando que à medida que avanço na escritura de novos livros se vai cavando mais abismo sob os pés, tanto do autor quanto do leitor. O que temos então em Estudos de pele – e logo o teremos também em Duas mentiras, livro que será publicado em seguida – é uma intensificação dessa aprendizagem com o imprevisto. Gosto dessa provocação constante do imaginário, de provocar a mim mesmo para que não incorra nunca na cristalização de um discurso.

AAF No início do livro, você escreve que “toda a criação está feita de equívocos, exageros, precárias aproximações da realidade, falsas suspeitas”. Peço que se estenda nesse assunto.

FM Quando publiquei Cenizas del sol (Andrómeda, 2001, Costa Rica), Alfredo Fressia, em resenha na imprensa uruguaia, considerou que “o discurso, como costuma ocorrer na poesia de Martins, parte de um não-saber, a ignorância que precede e provoca as reiteradas perguntas, como em um infinito diálogo interior, para encerrar-se com respostas intuídas por um observador”. Pode-se dizer que também em Estudos de pele a mesma trama estética está presente, embora com mais complexidade, pois tanto se desdobram e rearticulam as vozes convocadas como se multiplica a natureza do discurso, recorrendo a passagens bíblicas, crônicas policiais, fragmentos autobiográficos, evocações míticas e relatos de possessão. A linguagem poética ganha em astúcia quando acentua o que não anda bem nela mesma.

AAF O que me parece imensa beleza é ler seu livro como se fosse um romance com começo, meio e fim. Ao mesmo tempo, quero destacar imagens poéticas marcantes, escritas por quem conhece seu ofício de escrever. Você afirma que não houve nenhuma caridade na escritura de seu novo livro. O que significa isso?

FM A primeira observação diz respeito à estrutura do livro, que se não é propriamente romanesca tampouco se trata de uma simples coletânea de poemas soltos. Todo o livro se encontra montado partindo da ideia de uma polifonia. E aqui cabe recorrer uma vez mais ao que mencionas na pergunta anterior, sobre os exageros e fantasias que neste caso, à diferença de um livro como Dom Quixote, não se concentram na voz única de um narrador, mas sim num caudal de tramas secundárias que acabam conformando aquele “rio onírico”, digamos, evocando a aguda leitura que Milan Kundera faz da poética de Kafka, remetendo-nos a um “longo fôlego da imaginação” que tão bem se descortina na obra do autor de Castelo. Já em relação à caridade aludida, situemos o contexto em que ela se dá, sempre considerando esse jorro incessante de vozes que ambienta os cenários constitutivos do livro. Isto nos leva à ideia de visitação que menciono no início, lembrando que todas as vozes femininas estão por conta própria, que me procuraram para que eu lhes desse passo a seus depoimentos viscerais. São elas que fazem do autor seus inesgotáveis estudos. As mulheres de Estudos de pele são um retrato de nossa perda de sensibilidade. É do que nos acusam em todo momento. Tanto recorro a personagens bíblicos, pela notória violência sofrida pela mulher nas tábuas fundamentais do catolicismo, quanto à atualização desses padrões de sofrimento induzido. Estão presentes tanto as discordâncias cotidianas, na maneira de compartilhar a vida, quanto suas perspectivas míticas, as estranhezas manifestas, por vezes místicas. Estas mulheres não têm medo de dizer do que padecem: do abandono completo por parte de uma irracionalidade que assume o comando como sendo a supremacia humana.

AAF Repito a você a pergunta que faço a todos os poetas que entrevisto: afinal, a poesia serve para quê?

FM A rigor, já sabemos a resposta, conhecimento que também não serve para nada, pois a perversão se encontra na pergunta, que pode muito bem ser contestada com outra indagação: por que deveria servir a poesia para alguma coisa? Por aí não chegamos nunca a parte alguma. Já chega de tanta tolice que serve apenas para a pirotecnia de quem exibe malabares como sendo sua razão de ser. A serventia está ligada à ideia de manipulação. O que perdemos, poetas? Perdemos o prazer pela existência, o mergulho intenso no inapropriado, no inesperado, a cumplicidade com o imprevisto, até com o indesejável, e saber tratar disso como quem se dispõe a receber novos ensinamentos, abrir-se ao mundo, sim, Álvaro, abrir-se ao mundo, fugir da manipulação desonesta que separa arte e vida, por exemplo, porque não há mesmo vida sem forma, existência desgovernada em um plano estético. Então, a questão não é para que serve a poesia, mas sim para que servimos nós, seres humanos. E para que servimos nós?

AAF Os poetas de sua região [o Nordeste] sofrem de preconceitos especialmente pela região sul do país tropical de tantas alegrias e misérias? Quais são as dificuldades dos poetas dessa região brasileira?

FM Não vamos acentuar caipirismos e regionalismos. As dificuldades do país não afetam aos poetas mais do que a qualquer outro cidadão. Evidentemente que as oportunidades de trabalho confluem para o que se chama de eixo Rio-São Paulo, especialmente, no caso dos escritores, no âmbito editorial. Não é diferente em outros países, diferenciados por aspectos como dimensão territorial e condições econômicas e culturais. Trata-se basicamente de uma aposta reincidente, viciada e desgastada de manutenção de um grande centro produtor, centro de referência, barreira que requer um esforço maior para ser dissipada, uma atenção no sentido de não se importar um mesmo modelo, para cada região, digamos, de novo caipirismo. É difícil, porque a grande imprensa comanda o espetáculo e distribui a todos, indiscriminadamente, o mesmo santinho, a mesma carta marcada de seu baralho de futilidades existenciais. Mais difícil ainda porque todos sonham em virar carta marcada.

AAF Eu penso que a crítica literária brasileira – honradas algumas raríssimas exceções – já morreu há muito tempo, ficando no seu lugar um bando que prima pela desonestidade e pela desinformação cultural. O que você pensa da crítica literária dos jornais brasileiros, especialmente no trecho Rio-São Paulo?

FM Não te esqueças que as exceções servem apenas para confirmar a regra. Quem se preocupa com a crítica? Evidente que o leitor é um refém dela, um cliente a quem o marketing de venda trata com o mesmo desapreço que qualquer outro consumista. A ausência de reflexão sobre livros e autores em nossa imprensa não denuncia carência de visão crítica, como se o país estivesse momentaneamente desprovido de certa falta de argumentação e acuidade. O dilema central é o do comportamento de nosso intelectual, ou seja, há conivência por toda parte, todos sonham com o apogeu, a glória, buscam – até com incontrolável exasperação – um lugar ao sol, confundindo causa e efeito, sempre. Não se trata de setorizar a questão. Não há uma crítica regional, pois o que se veicula, a título de crítica – que não passa de um bolsão de resenhas definidas e apanhadas à pressa, além de mal pagas e com atraso – é assinado por gente de qualquer credo ou região. Eu sinto a tua preocupação, quase uma zanga, com o que se passa entre Rio e São Paulo, mas agora mesmo estamos em diálogo aberto em um jornal no Paraná, o que significa expressivamente que é possível buscar algo além do que chamei de caipirismo. O exercício da crítica tem a ver com despojamento, com clara intenção de diálogo, e não com o impositivo. Qual crítica morreu há muito tempo? Dois grandes estilos de crítica ganharam terreno no Brasil: o adjudicatório, onde a vítima paga pelos erros de sua eventual vinculação com o criminoso, seja uma escola literária ou uma mera preferência declarada em entrevista; e o evocatório, que – mais astuto – dispensa explicações. Em resumo: aos amigos da corte, tudo; a seus desafetos, nada. isto é crítica? Chegou a ser algum dia?

AAF Por que e para quem escrever poesia? Quem lê poesia no Brasil?

FM Isto me recorda o Fellini. É como se alguém ao final de um filme – e este filme representasse não apenas a sua vida, mas toda a existência humana – indagasse: mas afinal, para que serviu este filme? E então se poderia refletir que algo se passou de errado, de muito errado com o filme, pois ele não deveria suscitar tal indagação, porque todo o filme havia padecido da pretensão de olhar o mundo por uma outra lente que não fosse a do sentido histórico. E então Fellini, numa entrevista a Giovanni Grazzini, nos dá a chave: “Olho para o cotidiano, enquanto estou vivo. O resto é especulação”.

AAF Explique o seu trabalho na poesia de vários países latino-americanos, desenvolvido há tanto tempo, organizando antologias e eventos, levando a poesia brasileira para fora do país. Por incrível que possa parecer, ainda existem na literatura pessoas como você.


FM Não sou dado a falsas modéstias, mas tampouco me atrai a ideia de ficar a enumerar feitos. Gostaria que este meu trabalho ao menos provocasse um mal-estar, no sentido que houvesse uma atenção para a indagação-chave: por que evitamos o diálogo entre nossas culturas? Por que mesmo escritores, intelectuais, artistas, jamais promoveram a aproximação dessas culturas? Por que os acordos recentes entre países latino-americanos desconsideram a cultura desses povos? Por que reagimos de forma tão apática quando a pauta trata da cultura do país, em contrapartida à maneira efusiva com que saltam de órbita nossos olhinhos quando a única peça em questão no tabuleiro é o umbigo? Evidentemente que as estratégias do mercado artístico, por exemplo – se pensarmos em cinema ou música – delineiam-se buscando novos clientes, nada mais. Se nos submetemos todos a essa regra básica, tudo está perfeito. E como em um negócio qualquer, se a qualidade do produto foi substituída pela eficácia da apresentação do mesmo, sua retórica, digamos, como esperar da música ou do cinema, que queira voltar a ser arte? Pelo contrário, toda a arte agora quer ser cinema ou música. É uma grande enrascada em que nos metemos, e com a plena conivência dos artistas.

AAF E o seu trabalho de tradutor?

FM Imaginemos a cena em que um tradutor tenta obsessivamente evitar o original que está a traduzir. A todo custo tenta construir ali um objeto outro, o mais longe possível do original. Este será – segundo pensa – seu grande mérito. A lição – a não ser repetida por ninguém – é de que a tradução quer fazer com que o original desapareça por completo. Porém, sua grande perversão consiste no fato de que, mesmo ausentado, ele esteja sempre presente, com sua nova máscara, porque afinal a linguagem se transmite de máscara em máscara. Existem três determinantes estilísticas no trabalho de um tradutor: o estilo comum, o estilo do tradutor e, finalmente, o estilo do autor. É possível reduzir as transgressões de um autor a um mero idioma bem escrito, dialogar intensamente com elas ou destroná-las em nome da hipotética transgressão do tradutor. Teríamos aí os três estágios em que se movimenta a tradução: sufocação, despojamento, presunção. Creio que há apenas umaoriginalidade na tradução: a de perceber – e jamais será exata essa percepção – o grau de transgressão do que se está a traduzir. O resto é traquinagem, ou crime de lesa linguagem.

AAF A poesia brasileira atual, em muito casos, deprime, tal a inconseqüência de alguns nomes que têm respaldo da festividade do jornalismo cultural sem compromisso. Isso ocorre também em outros gêneros da literatura, mas no que diz respeito à poesia essa questão é alarmante. Então, para concluir, como anda a poesia brasileira hoje?

FM Desconfio que a poesia feita no Brasil sempre levou o que se poderia chamar de uma vida dupla: de um lado a vertente explícita, encorajada pela crítica acadêmica e a mídia, ou seja, sua agradável estação formalista, onde Semana de Arte Moderna e Concretismo, eventos de maior circulação internacional, representam uma mescla de conservadorismo e alheamento em termos de contato com a realidade. Observe-se que manifestos de uma tendência e outra se aproximam na estratégia de não reconhecimento do que está à volta ou atrás. Se o Modernismo simplesmente apaga as pistas que lhe são mais caras, no caso do Concretismo há uma presunção em negar tudo o que lhe antecede. Por outro lado, há a gestão solitária de eclosões que acabam por traçar um mapa mais denso de nossa cartografia poética. Evidentemente que isto se passa em qualquer parte. Mas por vezes me impressiona a maneira como um ilusório status quo da poesia encanta o que há de mais medíocre, catadores de versos que perseguem uma condição que, a bem da verdade, quem a tem, de fato, se sente incomodado com ela. Os poetas são uns chatos, que sempre alertam para as tolices cometidas pela espécie humana. Como alguém pode sentir prazer em ser poeta? É de uma morbidez impecável. Mas todos querem se sentir poetas. É o lado espetacular da coisa, onde a sensação tem mais importância do que o poema em si. O personagem ganha a parada. O poeta em nossos dias não busca senão tornar-se personagem de si mesmo. Nem precisa escrever versos. É tão simples e ao mesmo tempo todos parecem felizes com a situação: críticos e editores e poetas se felicitam por esse acerto de ocasião. Nas outras artes também se passa o mesmo. O que antes se poderia pensar que era uma fábrica discreta de autores, agora ganha uma logística mais apurada: trata-se de uma fábrica de leitores. Pensemos no cinema, por exemplo, naqueles atores que estão sempre a estragar as cenas porque exibem um patético olhar de quem se sente extasiado com a própria – e suposta, claro – genialidade: Antonio Banderas e Hally Berry são boas lembranças deste caso. Para melhor compreensão, misturemos as artes – já não seria sem tempo. Acabaríamos percebendo que, no geral, uma vez que estamos falando de Brasil, o poeta tornou-se um grande canastrão.

 [2004]

[Entrevista concedida a Álvaro Alves de Faria. Originalmente publicada no Jornal Rascunho # 54. Curitiba, outubro de 2004. Integra o livro O hábito do abismo (Entrevistas com Floriano Martins), de Márcio Simões (ARC Edições: Fortaleza, 2013).]




sábado, 4 de outubro de 2014

UM OLHAR NA POESIA | Entrevista a Carmen Virginia Carrillo



CARMEN VIRGINIA CARRILLO O que é a poesia para Floriano Martins?

FLORIANO MARTINS Dizia o grego Embeiríkos que “a poesia é o desenvolvimento de sapatos engraxados”. No mesmo poema dizia ainda: “esta excursão não tem fim”. De alguma maneira, toda definição limita. A poesia se deixa encharcar de toda a matéria humana. O homem a anuncia como o canto da gravidade, da vivência. Mesmo assim, como digo ao final de um poema, “haverá sempre algo ali impossível de se seguir”. Portanto, melhor será não defini-la, mas antes tomar-lhe o curso, vendo o que se aprende com ela.

CVC Quais são os autores que mais influenciaram sua obra?

FM Não compartilho muito essa ideia algo imprecisa das influências que, no caso de um escritor, sempre remete a um plano literário. Compreendo que um autor tem por influência maior a própria experiência de vida. Em meu caso, acrescentaria um diálogo que quase sempre estabeleço com algum livro quando estou a escrever. Posso assim pensar em livros como The White Goddess, de Robert Graves, ou Le coupable, de Georges Bataille, ou Diario de muerte, de Enrique Lihn, ou O livro egípcio dos mortos, ou El blasfemo coronado, de Humberto Díaz-Casanueva, que foram leituras que me acompanharam durante a escritura de alguns de meus livros. Mas juntamente com essas leituras, posso também referir-me ao Paris Concert, de Keith Jarrett, ou aos carvões de Goya, ou ao Joe's garage, de Frank Zappa e a muitas canções de Tom Waits etc., mas com sinceridade não vejo ali o que se poderia chamar de influência. Agora, como somos a soma de tudo o que fomos e seremos, é natural que todos os poetas estejam em mim, sem que me caiba destacar algum. Em todo caso, interessa o mergulho na existência humana, no grande tumulto originário, alheio a todo tipo de identificações convencionais, literárias ou não.

CVC Qual relação você encontra entre filosofia e poesia?

FM Não creio em nenhuma dessas duas forças desgarradas de uma imanência que lhes é peculiar, ou seja, a relação intrínseca que ambas devem ter com o homem e a realidade. Qualquer tentativa de torná-las distantes dessa imanência, por exemplo, a redução a mera técnica (mística ou poética), não consegue senão afastar o próprio homem de si mesmo. Mas tenhamos em conta que poesia é criação, invenção, ao passo que filosofia é reflexão sobre o criado ou seu desejo.

CVC O tempo e a memória são dois temas recorrentes em sua obra. Você acredita que o tempo da escritura é um tempo mágico que eterniza o assombro do poeta diante da vida, suas emoções, vivências e ansiedades?

FM Não há propriamente um tempo mágico. O que se poderia chamar de mágica é nossa relação com o tempo. E esta magia tem que estar na carne daquilo que escrevemos, pois é afinal o que estamos vivendo. Tal experiência pulsante, diária, não se separa de uma memória, seja do passado ou do futuro. A escritura de um poema reflete a vida de seu criador, consequentemente comporta tanto o sublime quanto o revés, de maneira que o assombro do poeta estará ligado mais à capacidade de percepção da realidade.

CVC O crítico Rolando Toro comentou que “seu projeto poético é subversivo, alheio aos valores convencionais”. Em que medida a sua obra se revela contra a tradição poética do Brasil?

FM Há um componente metapoético em minha poesia que a aproxima um pouco de autores como Jorge de Lima ou Dante Milano. Trata-se de uma reflexão constante sobre o próprio pensamento poético, em meu caso uma crítica à relação entre poeta e sociedade. Por outro lado, participam de minha poética componentes da tragédia (personagens, diálogo, trama, coro), que lhe dão uma peculiaridade dramática que não se observa na tradição lírica brasileira. A subversão a que se refere Rolando Toro diz respeito a um vício formalista, beletrista, parnasiano, que caracteriza a poesia brasileira, somente rompido em raros momentos em toda a história.

CVC Você se considera um poeta surrealista? Qual a importância da analogia em seu processo criador?

FM Devo aclarar essa questão. Tenho com o Surrealismo uma relação entranhável, sobretudo se pensarmos em alguns poetas hispano-americanos, a exemplo de Enrique Molina ou Ludwig Zeller, que sempre me interessaram muito. Agora, não me considero um surrealista, e sim alguém que chamou para si a defesa do Surrealismo, levando em conta que se tinha dele uma ideia bastante distorcida em meu país. Além desse aspecto, não caibo nas classificações habituais.
Já no tocante à analogia, é naturalmente a chave de todos os conflitos que encarno em meu processo criador, as relações entre visível e invisível, possível e impossível, mundo criado e mundo por criar. A analogia como uma transgressão do facilmente perceptível, do que se mostra apenas em aparência. Como destacou Rolando Toro, vemos em minha poética uma “linguagem que para viver deve consumir seu corpo”. Em tal consumição reflete sobre as formas que encarna, averiguando inferno e paraíso, Eros e Tanatos, todos os pares que conformam a grande aventura humana, reconhecendo as semelhanças ocultas, restituindo o mistério da imagem, uma mística profunda que transgride todas as leis de um pensamento lógico.

CVC De seus primeiros livros de poemas à sua última produção poética houve alguma mudança estilística fundamental?

FM Naturalmente. Por muito tempo confesso não haver encontrado uma voz própria. Tanto em forma como em conteúdo, vivia um pouco à sombra de algo já escrito. Em um primeiro momento, escrevi muito pautado pelo discurso, despreocupado com a forma. Logo me deixei influenciar bastante pela Beat Generation e o universo dos comics, mesclando essas duas leituras em painéis que buscavam já alguma aproximação com o que escrevo hoje. Mas somente a princípios dos 90 é que defini uma poética que fosse a grande soma de todas as vivências e percepções, uma escritura polissêmica cuja complexidade estrutural não fosse apenas uma articulação retórica, mas sim uma estratégia essencial à própria resolução dos desafios impostos, definida por um sentido natural de abrangência de códigos, quase uma volúpia da escrita.

CVC Quando e por que motivo surge seu interesse pela literatura hispano-americana?

FM Vem originalmente da curiosidade que logo vai se mesclando com uma indignação. Ao ler o prólogo de uma edição da Obra Completa de Vallejo vi ali menção a dois ou três outros poetas que eu desconhecia. Ao procurar pistas me deparei com vários, o que me foi levando a averiguações cada vez mais intensas, até que se descortinasse diante de meus olhos um mundo completamente outro, fascinante em sua raiz e desdobramentos. Desde então persigo um encontro possível entre essas múltiplas poéticas que constituem a América Latina.

CVC Como se vê no Brasil a poesia hispano-americana atual?

FM Sigo lamentando que não se veja no Brasil a poesia hispano-americana, a menos que importe falar de iniciativas isoladas ou de algum exercício tradutório entre jovens poetas. Em um plano editorial, não se leva em conta, em meu país, a existência de uma poesia hispano-americana. Raramente surge alguma edição, desprovida de qualquer caráter programático que nos faça acreditar na existência de um diálogo entre duas culturas. Reflexo disso é que criamos um entendimento desnorteado do que seja a poesia na América Hispânica. Caso recente é o de fascínio de alguns poetas brasileiros pelo que se chama de neo-barroco (ou neobarroso, como preferem), o que se justifica apenas em função de ignorância nossa em torno dos grandes postulados poéticos de gerações anteriores.
Como o Brasil encarna uma vez mais o mito beletrista, com todos os vícios formalistas que o caracterizam (em qual outra tradição poética seria possível o Concretismo?), o que percebemos da atual poesia hispano-americana é justamente aqueles acentos que facilmente identificamos como um retrocesso em uma densa e iluminada tradição.

 [2002]

[Entrevista concedida a Carmen Virginia Carrillo. Originalmente publicada na revista Orpheu Digital # 7. Porto Alegre, janeiro de 2002. Integra o livro O hábito do abismo (Entrevistas com Floriano Martins), de Márcio Simões (ARC Edições: Fortaleza, 2013).]